Autorias e Ateliers

Qual o objetivo de ter nomes individuais de pessoas enquanto nome de atelier de arquitetura? Na minha opinião, a questão fundamental de isto não fazer sentido é que o trabalho que é conceber um projeto nunca origina de apenas uma pessoa, acaba por ser um trabalho coletivo e que seria impossível ser feito sem a operação de várias pessoas diferentes, que influenciam o projeto com o seu próprio input. Claro que isto acaba por ser tudo a mesma questão que um dono de empresa, de onde é "originada" a ideia para prestar um serviço, mas neste caso a empresa e o serviço são todos concentrados em um singular nome, em vez de uma marca, por exemplo. Os louros acabam por ser dados para o tal indivíduo porque o dito cujo é tido como um fomentador daquilo tudo, sem essa pessoa nada daquilo teria acontecido, e é verdade... Não num sentido de esta pessoa é que nos salvou e que prestou este serviço da forma como está a ser feito, mas simplesmente porque agora que já está feito, é algo que se tem de ter em conta quando se analisa a época corrente: nada teria acontecido sem essa pessoa...mas teria acontecido de forma diferente, que nunca saberemos como porque isso é impossível. Mas isto acaba por resultar em outras questões que são continuamente proporcionadas e é gerado sub conscientemente um ciclo de individualidade. Como por exemplo, pela razão de o arquiteto achar que tem a opinião e a visão concreta de como quer as coisas, a grande maioria dos processos criativos de um projeto são vindos apenas dele, podendo apenas considerar a ajuda do resto de atelier em momentos concretos ou formalizando um projeto em conjunto com outro atelier, ou neste caso apenas um outro arquiteto. Isto gera uma dinâmica muito separada entre a pessoa que dá ao título ao atelier e o resto dos seus trabalhadores, formando uma relação clara de hierarquia, ou seja, a separação pode não ser dada apenas por uma perspetiva formal, mas também até física, em que estes "diretores" estão localizados numa sala ou até num andar separado do resto. Isto não só coloca todas as ideias más de um único individuo no projeto que, por sua vez, acaba por ter pouca revisão, mas simultaneamente o resto das pessoas que se encontra no mesmo atelier perdem um pouco da sua individualidade ao subjugarem-se às ideias do outro. Durante o curso de arquitetura somos supostamente ensinados a trabalhar em grupo, na cadeira de projeto, mas continua a perceber-se claramente quais seriam os colegas que seriam capazes de ter um atelier de nome próprio, pelas suas ideias parecem muitos mais diretas e individualistas e por por vezes realizarem os seus projetos a partir de princípios próprios sem ter em última consideração, no mínimo, a opinião maioritária de um grupo. Este assunto acaba por provir dos vários problemas societais que encontramos nos tempos de hoje, um grande individualismo e concentração dos resultados numa única pessoa e falta de consideração pelo resto dos trabalhadores. Também se pode fazer o caso da continuação de uma tendência patriarcal e machista, em que os ateliers liderados por mulheres são bem mais raros e outros que seriam coletivos onde um dos protagonistas é uma mulher acaba par ter um nome não individualista. É verdade que a identificação de projetos acaba por ser consideravelmente mais fácil, de alguma forma, mas isso também vem do ensinamento contínuo que nos é dado de que o sucesso individual acaba por ser mais importante e parece que o sonho inicial de qualquer arquiteto é ter o seu nome estampado numa placa em frente a um edifício construído. Acaba por haver muito mais formas de organizar um atelier do que esta única forma, mas estas parecem muito mais raras e possivelmente mais remotas à mente... Mas na minha opinião é nesse tipo de organização que se deve apostar, especialmente numa área de conhecimento tão abrangente como arquitetura, em que as várias vidas e origens de cada uma das pessoas envolvida nos projetos concebidos acaba por ser muito mais importante do que simplesmente um senhor com dinheiro para contratar outros.

 - TeT

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