Snooker e Singularidade

 De volta estou, não só a escrever, mas também a ver snooker em direto na EuroSport, o único canal gratuito que cobre jogos desta modalidade. Tenho por vezes subidas e descidas no que toca ao meu acompanhamento do desporto. Quando estou em épocas mais trabalhosas, por vezes esqueço-me de estar a ver constantemente quem vai ganhando e as performances de cada jogador. Isso acaba por acontecer com qualquer outro aspeto da minha vida, no entanto, mas sinto que quando vejo uma parte de mim fica mais completa e feliz. Tenho algo com que me entreter, posso colocar de fundo e quando presto atenção sinto-me da mesma forma a vibrar com o jogo tal como a plateia que visualiza em direto. Não sei bem explicar qual é o meu gosto pela modalidade. Sempre fui muito chato no que toca à distinção entre o que é snooker, bilhar e pool, e não porque jogo nada disto frequentemente, mas porque faz bem dizer as coisas corretamente. Sou um jogador como qualquer outro que pegue num taco e alugue uma mesa num bar. Sei o que fazer, embolsar bolas, e sei mais ou menos o que fazer, com um taco nas mãos. Já me dei ao trabalho de pesquisar técnicas e formas de melhorar nas minhas tacadas e a visualização do jogo dá-me alguma noção de como pensar em cada jogada e prever o que fazer em seguida. Até já treinei em casa, desde que o meu pai concretizou o seu sonho de ter uma mesa de pool em casa. Esta é a variação mais popular, sendo jogada com apenas 15 bolas (7 carecas, 7 lisas e uma bola preta), mas o que eu sigo mesmo é a variação que se joga com 15 bolas vermelhas e outras 6 de cores singulares (amarela, verde, castanha, azul, rosa e preta). No verão de 2020 (mais tempo do que esperava), lembro-me de estar de férias no Algarve e de ter alterado o canal da televisão do local onde estava alojado para a Eurosport, porque gosto de colocar desporto de fundo por entretenimento. Estava então a dar uma competição de snooker, não em direto, até porque era verão, mas a repetir um jogo. Comecei a prestar alguma atenção e todos os almoços no resto dessa semana, ligava a televisão à espera que estivesse a dar e ficava atento todas as vezes. Quando voltei de férias não vi muito mais. No mês de Novembro desse ano devo ter feito o mesmo que fiz nessas férias, liguei a Eurosport e vi snooker. Estava a dar o UK Championship e decidi tentar ir vendo até ao jogo final, disputado entre o inglês Judd Trump e o australiano Neil Robertson. Esta foi a partida que me fez adorar o desporto, foi uma excelente demonstração de habilidade de jogo e foi decidido num frame decisivo à melhor de 19 jogos. Acho que aprendi a gostar do ritmo de jogo, no geral é lento, mas deixa-nos ansiosos pelo momento em que alguém pega no taco e começa a embolsar tudo até ao fim. É um jogo calculista, tendo de pensar na próxima tacada antes de se dar uma qualquer, mas também tentar perceber qual é a melhor estratégia, se é atacar ou defender, dependendo da disposição da mesa ou da própria habilidade. É também sobre ver se se consegue arrecadar pontos a partir das faltas do adversário e esperar que o adversário consiga saír da situação em que está. Todos estes pontos jogados com um gesto que parece simples, mas que para se masterizar é preciso uma complexa afinação, desde a postura do corpo, à força que deve ser jogada, ao efeito que se deve dar à bola branca, que é definido pelo ponto onde a ponta do taco toca na cue ball e, simultaneamente, prever qual a reação que essa bola terá ao tocar noutra ou ao tocar numa das tabelas. Um visualizador comum, como eu, não imagina a quantidade de horas que cada um dos jogadores passará no treino até aperfeiçoar cada centímetro da sua jogada. Para mim é de louvar. O único ponto negativo do jogo (e que me dá também pena) é a grande individualidade que o jogo traz. É muito possível falhar alguma coisa e nunca mais ter oportunidade de jogar no resto da partida. A quantidade de culpa que os jogadores devem sentir ao perder um jogo sem ter a possibilidade de culpar alguém acaba por ser maior do que muitos outros desportos (não desculpando quem faz isso, já agora). Para além disso, sendo um desporto que depende muito da colocação em cada torneio para se poder fazer um trabalho daquilo que se recebe para se manter no ranking e com dinheiro, faz a pressão de falhar uma tacada multiplas vezes maior. Muitos jogadores sucumbem à pressão e acabam por ter fases piores em termos de saúde mental ou outros vícios. Este aspeto deixa o desporto muito enfraquecido e sem o devido apoio, os profissionais não têm forma de continuar a fazer o que gostam sem por vezes terem de ter um segundo trabalho. Pelo contrário, quem vence acaba por receber prémios extremamente altos, que muitos outros aspiram e poderão nunca ver na sua vida. Espero que isto mude de alguma forma no futuro e que seja um desporto apreciado e visto por muita gente. Também espero que volte a haver um torneio em Portugal, que eu saiba só houve um em 2014. Eu seria muito feliz!

-TeT

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